Fotografia do "Rio Cávado, no Gerês"

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A Escola com que sempre sonhei


"O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos."
- "A alegria de ensinar", de Rubem A. Alves


O livro A Escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir”, do conhecido pedagogo brasileiro Rubem Alves, tem como objecto das narrativas e dos depoimentos a Escola da Ponte nº 1, em Vila das Aves, no concelho de Santo Tirso.


Escola da Ponte, por Rubem Alves

São extraordinários os esforços que estão sendo feitos para fazer com que nossas linhas de montagem chamadas escolas tão boas quanto as japonesas. Mas o que eu gostaria mesmo é de acabar com elas. Sonho com uma escola retrógrada, artesanal...
Impossível? Eu também pensava. Mas fui a Portugal e lá encontrei a escola com que sempre sonhara: a "Escola da Ponte". Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos alunos: havia disciplina, concentração, alegria e eficiência.
Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são.
Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram.
Pois estou fazendo com as minhas crônicas o que Monet fez: ele, diante do monte de feno; eu, diante de uma pequena escola por que me apaixonei -- pois ela é a escola com que sempre sonhei sem ter sido capaz de desenhar.

Escola da Ponte: um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início da outra.

A lição social: todos partilhamos de um mesmo mundo.
Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura.
Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação.
Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas.
É preciso ouvir os "miúdos", para saber o que eles sentem e pensam.
É preciso ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem e pensam.
São as crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto trabalham.
São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer às regras.
Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo: o jogo, para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. Já imaginaram um jogo de vôlei em que cada jogador pode fazer o que quiser?
A vida social depende de que cada um abra mão da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva.
E assim vão as crianças aprendendo as regras da convivência democrática, sem que elas constem de um programa.

-Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da UNICAMP. Os trechos aqui transcritos foram retirados das cronicas publicadas no jornal Correio Popular, de Campinas, SP (entre maio e junho do ano 2000), que foram posteriormente publicadas no livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir (Papirus Editora, Campinas, SP, 2001 e Edições Asa, Porto, 2001)

A Escola da Ponte é uma instituição pública, localizada em Vila das Aves, Portugal, idealizada por José Pacheco, em que não existem turmas separadas por idade ou escolaridade.

Aqui, entrevista com José Pacheco: http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=4BF2C82907DA395FE04400144F16FAAE&opsel=1&channelid=0

José Pacheco: "A medida de política educativa de maior impacto seria a extinção do Ministério da Educação"



Esta era a velha escola da Ponte, em 1976, na Vila das Aves.
Este foi o edifício que eu frequentei na minha instrução primária, pois nasci na Vila das Aves e lá vivi durante 15 anos.
velho deu lugar ao novo... mas foi precisa a persistência de um mestre, a teimosia de um sonho, o empenho de quem sabe esperar.
José Pacheco fez a ponte no tempo para que a escola mudasse...!
É preciso saber sonhar... sonhar com escolas do futuro, como esta que se antecipou no tempo.











8 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

Lucy

Bom dia. Que agradável surpresa termos em Portugal uma escola assim, feita de sonho, de amor e de sabedoria. Que bom o elogio de Ruben Alves à Escola da Ponte! Que maravilhoso haver gente como José Pacheco!
Excelente post, Lucy.
Ainda volto aqui para reler e para ler a entrvista com ele.
Abraço.
Eduardo

Agulheta disse...

Lucy! Muito gostei ao ler este artigo ou informação como queiras,pois eu tenho essas ideias que as escolas precisam urgente de amor entre pais e educadores,a isto chamo uma escola de futuro,cada um fazer as regras não.Um bom elogia a Ruben Alves e à Escola da Ponte,agora estou um pouco ocupada,vou voltar e ver a entrevista?.
Beijinho...vizinha?

Astrid Annabelle disse...

Lucy...
que conversa boa e bonita!
Não sabia dessa escola aí em Portugal.
Muito interessante o texto de Rubem Alves e a entrevista com O José Pacheco!
Vivendo e aprendendo!
Parabéns pelo post.
Um beijo grande.
Astrid

Eduardo Aleixo disse...

Lucy: apreciei muito a entrevista. De registo: cada escola, tal como cada ser humano, é única e irrepetível. Outro registo: a inutilidade deste Ministério. Outro: a discordânncia quanto à avaliação baseada na lógica da divisão que provoca entre os professores. E outras: tudo, afinal.Trata-se de um inovador, de um homem de diálogo, de alguém que sabe fazer a mudança...com os agentes da mudança.
Eduardo

Lucy disse...

Eduardo,

Estava eu aler, mais uma vez a entrevista, também, até acrescentei no blog o início da entrevista de José Pacheco: "A medida de política educativa de maior impacto seria a extinção do Ministério da Educação".

Agradeço muito os teus comentários. Nós temos de ser permeáveis às mudanças, acabr com o mofo de muitas escolas e somos todos agentes dessas mudanças: sonhando, semeando dentro de nós, para que esses pensamentos rebentem no colectivo e se expandam com o vento. Eu sempre acreditei que quando damos muita atenção a um facto e, se formos muitos, ele acaba por germinar dentro de outros, mesmo sem ser semeado, como papoilas nascendo nos campos.

Vai apareendo sempre, sabes que aprecio as tuas apreciações.

Um beijo grande,
Lucy

Lucy disse...

Agulheta, vai saboreando uma educação futura, na tua mente, que ela se propagará como uma corrente.

Esse entendimento entre pais, alunos e professores, existirá quando a educação for vista como um todo, no desenvolvimento do ser integral, quando a actividade lúdica nas escolas fizer parte dos currículos académicos como meio de aproximação às famílias.

Na minha escola desenvolvi um projecto sobre esta temática e que foi muito bem aceite.

Os pais de hoje não estão desligados da educação dos filhos, só esperam uma oportunidade para poderem compartilhar esta tarefa.

As possibilidades de encontros com as famílias não se esgotaram, talvez comecem agora a dar os primeiros passos.


Um beijo,
Lucy

Lucy disse...

Astrid,

Na Internet tens vários textos de Rubem Alves e José Pacheco. Mesmo blogs. É só procurar.

Para mim, apesar de já estar do lado de fora do ensino - 'oficialmente'- agora me entusiasmo mais, pois sou livre de criar e falar.

Os meus 32 anos de serviço foram uma 'porcaria', quando penso neles e os comparo com projectos como este. Mas depois, penso que tive 'fragmentos' e 'visões' que pus também em prática, melhorando e renovando o estado de ver 'educação'.

Sempre fui um pouco como a "Formiga Z", não suportando marchar ao compasso dos tambores do ministério. Hoje sim, eu posso sorrir e dizer que já sabia que "a casa ía abaixo", que a "educação" é um edifíco em ruínas, pronto para ser demolido. Como não, se todos os alicerces estão errados?

Hoje sinto a maior liberdade do mundo e a maior benção ao dizer: "já não sou professora de nada...", mas talvez deixe este tema para uma próxima ocasião, senão não me calo.

Uma beijoca, amiga!
Lucy

Maria Clarinda disse...

MARAVILHAAAAAAAA! Ruben Alves, já li muitos livros e crónicas dele.
Li e reli este post e voltarei para o ler ainda melhor!
Parabéns está belíssimo.
Obrigada por ele.