Fotografia do "Rio Cávado, no Gerês"

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

D. Afonso Henriques e o Milagre de Cárquere

Enigmas


Quantas vidas se contariam
se estas cadeiras falassem,
se as mesas articulassem
palavras,
elas falariam
de tão diferentes pessoas.

As emoções diversas
relembram soluços e risos,
as vidas que passam por aqui
misturam-se, condimentadas,
num enigmático
profanar de confidências.

Publicada por 

Santuário de Nossa Senhora de Cárquere 


Está localizado na vertente da Serra de São Cristóvão, a 6 Km da vila de Resende. A igreja é de uma só nave, com características de estilo manuelino. A capela-mor, gótica, deverá datar dos fins do século XIII ou inícios do século XIV. Contígua à sacristia, na parte mais antiga do edifício, situa-se a capela funerária dos senhores de Resende. A torre sineira é do século XIII. Foi antigo Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Sto. Agostinho e posteriormente dos Jesuítas.

Localização
- Mosteiro de Santa Maria de Cárquere
4660
Distrito: Viseu
Concelho: Resende
Freguesia: Cárquere









Como D. Egas Moniz (1) criou D. Afonso (Henriques), filho do Conde D. Anrique, e como (o mesmo D. Afonso Henriques) foi são per milagre de Nossa Senhora d’ aleijão com que nasceu.
/f. 5/
DEPOIS que o Conde D. Anrique / assi / (2) foi casado com Dª Tareja, (3) filha del-Rei / D. Afonso (VI) / (4) de Castela, como dito é, vindo ela a emprenhar, D. Egas Moniz, (5) mui esforçado e nobre fidalgo, grande seu privado, que com ele viera de sua terra, a quem tinha feita muita mercê, chegou a ele, (6) pedindo-lhe que qualquer filho ou filha que a Rainha parisse, lho quisesse dar, pera o ele criar. (7) E o Conde lho outorgou.

E veio a Rainha a parir um filho, (8) grande e fermoso, que não podia mais / ser em / (9) uma criatura, salvo que nasceu com as pernas tão encolheitas que, ao parecer de mestres e de todos, julgarom que nunca poderia ser são delas. E nasceu no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesu Cristo de M e XC e IV anos. (10)

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou depressa (11) e veio-se a Guimarães, onde o Conde D. Anrique estava, e pedindo-lhe, por mercê, que lhe desse o filho que lhe nascera, pera o haver de criar, como lhe tinha prometido. E o Conde lhe respondeu que não quisesse tomar tal cargo, que o filho que lhe Deus dera nascera, por seus pecados, tolheito de maneira (12) que todos tinham que nunca guareceria, nem seria pera (ser um) homem. E D. Egas Moniz, quando esto ouviu, pesou-lhe muito (13) e disse: -«Senhor, antes cuido eu que por meus pecados aconteceu isto. Mas, pois a Deus aprouve ser tal (14) minha ventura, dai-me, todavia, vosso filho, (15) quijando quer que seja». E o Conde, posto que tivesse grande pejo, pelo bem que a D. Egas Moniz queria, de o encarregar em semelhantes crianças, (16) por causa d’ aleigão da criança, contudo lha deu, por comprir (o que lhe tinha prometido). (17) (18)

E quando D. Egas vio a criança tão fermosa e com tal aleijão, (19) houve mui grande dó dela. E, confiando em Deus, que lhe podia dar saúde, a tomou (20) e a fez criar, não com menos amor e cuidado, (21) (do) que se fosse mui são. E, jazendo D. Egas Moniz uma noite dormindo, sendo já o menino de cinco anos, (22) lhe apareceu Nossa Senhora (23) e disse: -«D. Egas, dormes?» E ele, / a esta visão e voz, acordando, / (24) dixe: -«Senhora, quem sois vós?» E ela disse: -«Eu são a Virgem Maria, que te mando (25) que vás a um tal lugar - dando-lhe logo sinais dele - e faz i cavar, e acharás (26) uma igreja que, em outro tempo, foi começada em o meu nome, e uma imagem minha. Faz correger a igreja e a imagem, feita em minha honra. E isto feito, (27) farás i vegília, poendo (28) o menino / que crias / (29) sobre o altar, e sabe que guarecerá e /f. 5 v/ será são (30) de todo; e não menos te trabalha, daí avante, de o bem criar e guardar, (31) como fazes, porque meu Filho quer, por ele, destruir muitos imigos (32) da fé».

Desaparecida / esta visão /, (33) ficou D. Egas Moniz mui consolado e alegre, / como vassalo que, com são e verdadeiro amor, amava seu senhor e suas cousas /. E, tanto que foi menhã, alevantou-se logo, e foi-se, com gente, àquele lugar que lhe fora dito. E mandou (34) aí cavar, e achou aquela igreja e imagem, poendo em obra todas as cousas que Nª Senhora mandava. A qual e imagem, poendo em obra todas as cousas que Nossa Senhora mandava. À qual aprouve, por sua santa piadade, tanto que o menino foi posto sobre o altar, (ficou como se) nada tivera /. (35) (36)

/ Vendo /, (37) D. Egas Moniz, este tamanho prazer e milagre, deu muitos louvores a Deus e à Senhora Sua Madre, criando e guardando, daí avante, com muito amor e cuidado, (38) o menino, cujo aio foi sempre, até (39) que seu pai morreu em Estorga, sendo ele já de tamanha idade que, nas guerras e todas outras fadigas, supria os cargos de seu pai.(40) E, por causa deste milagre, foi, depois, feito, em esta igreja, com muita devação, o moisteiro de Cárcare.(41) E como quer que alguns contem seu nascimento haver sido Ultramar, e bautisado no rio Jordão, porém, por mais verdade, achei ser seu nascimento em a maneira que dixe.(42)
(C: f. 5 - G: p. 21 - P: p. 49, lin. 3)

In Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal, Edição Crítica, pelo Académico de Número Carlos da Silva Tarouca, S. J., Vol. I, Academia Portuguesa da História, Lisboa, M CM LII.


A grafia das palavras foi actualizada. As palavras colocadas entre parênteses foram acrescentadas, a fim de facilitar a compreensão do texto.

Aqui: http://www.eb1-passos-resende.rcts.pt/2004_2005/milagre-de-carquere.html



5 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

Mas que riqueza de post, o teu, minha amiga. Não falo de mim, não. Falo de ti e da tua alma grande. Até amanhã.
Eduardo

Vieira Calado disse...

Obrigado, amiga!

Vou colocar o endereço do seu blog em nova lista, a publicar.

Bjs

Paula Raposo disse...

Obrigada por teres escolhido um poema meu!! Tão belas as tuas fotos. Gostei muito de estar aqui. Muitos beijos.

Eduardo Aleixo disse...

É tão bom vermos pessoas de quem gostamos reunidas no mesmo lugar! É tão bom vermos pessoas, como tu, Lucy, juntarem as pessoas, todas elas diferentes, mas de coração aberto. É tão bom ver o Amor na prática, farto que estou de teorias e de doutrinas. Obrigado.
Deus está contigo. E os qnjos. Abraço. Eduardo

Lucy disse...

Agradecida, aqui aos poetas, pela honra de suas visitas.

Um beijo para todos,
Lucy