Fotografia do "Rio Cávado, no Gerês"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A nossa gente: Rosa Ramalho

Rosa Ramalho aos 86 anos (1973). Fotografia de Carlos Coutinho.

Rosa Ramalho OSE (1888-1977) é o nome artístico de Rosa Barbosa Lopes, barrista e figura emblemática da olaria tradicional portuguesa.

Rosa Ramalho nasceu a 14 de Agosto de 1888 na freguesia de São Martinho de Galegos (concelho de Barcelos). Filha de um sapateiro e de uma tecedeira, casou-se aos 18 anos com um moleiro e teve sete filhos. Aprendeu a trabalhar o barro desde muito nova, mas interrompeu a actividade durante cerca de 50 anos para cuidar da família. Só após a morte do marido, e já com 68 anos de idade, retomou o trabalho com o barro e começou a criar as figuras que a tornaram famosa. As suas peças simultaneamente dramáticas e fantasistas, denotadoras de uma imaginação prodigiosa, distinguiam-na de outros barristas e oleiros e proporcionaram-lhe uma fama que ultrapassou fronteiras.
Foi a António Quadros que se deveu a descoberta de Rosa Ramalho pela crítica artística e a sua divulgação nos meios "cultos". Foi a primeira barrista a ser conhecida individualmente pelo próprio nome e teve o reconhecimento, entre outros, da Presidência da República, que em 9 de Junho de 1980 lhe atribuiu o grau de Dama da Ordem de Sant'Iago da Espada. Em 1968 tinha-lhe sido também entregue a medalha "As Artes ao Serviço da Nação".
Sobre a artista há um livro de Mário Cláudio (Rosa, de 1988, integrado na Trilogia da mão) e uma curta-metragem documental de Nuno Paulo Bouça (À volta de Rosa Ramalho, de 1996). Actualmente dá nome a uma rua da cidade de Barcelos e a uma escola EB 2,3 da freguesia de Barcelinhos. Há também a possibilidade de que se venha a transformar a sua antiga oficina, em São Martinho de Galegos, num museu de olaria com o seu nome.

O seu trabalho é continuado actualmente pela neta Júlia Ramalho.







(As fotos de cima são destas duas lojas, em Barcelos, na zona histórica da cidade)
Fotos de Lucília Ramos



Júlia Ramalho

Júlia Ramalho é uma barrista portuguesa nascida em São Martinho de Galegos (concelho de Barcelos) a 3 de Maio de 1946. Neta de Rosa Ramalho, de quem foi discípula desde muito nova, herdou da avó o gosto pela olaria e o talento criativo. Medusas, bacos, diabos trovadores, figuras fantásticas, o Padre Inácio e Os sete pecados mortais são algumas das peças mais famosas da artista.


Segundo Júlia Ramalho, neta Rosa Ramalho, “a minha avó dizia que via demónios e contava-me histórias de feiticeiras e eu acreditava em tudo”.

É assim que se recorda desta personagem que marcou a cena artística portuguesa entre o final da década de 50 até ao seu falecimento, em 1977.
Para Júlia Ramalho, os visitantes faziam parte do dia-dia e mesmo quando o Estado Novo tentou aglutinar a obra da sua avó como instrumento de propaganda, manteve a sua autonomia. Eram muitas as personalidades que faziam a vilegiatura até Galegos: ”O Dr. Salazar só vimos uma vez no Museu de Arte Popular, mas o Américo Thomaz passou uma vez por aqui, o povo reuniu-se para ver a comitiva, a minha avó estava a assistir, ele viu-a e mandou parar o carro só para cumprimentá-la. A minha avó tratava-o tu cá tu lá.”

Os artistas chegavam sempre nos dias de folga e ficavam o dia todo, como Raul Solnado, Eunice Muñoz, José Viana. A Amália aparecia regularmente: “Uma vez veio fazer um filme na casa da minha avó, chegou de madrugada com várias pessoas. A minha avó ia cedo para a cama, mas lá abriu a porta e foi arranjar pão em Barcelos para matarem a fome”, recorda Júlia Ramalho.

As idas a Lisboa são frequentes, para participar nas feiras de artesanato onde recebe estímulos e carinho de um público diversificado. Mas a ceramista tem a idade avançada. Em Dezembro de 1977 uma hérnia que tinha piorou. e acabou por falecer.

“Viveu muito pobre e trabalhou até morrer”, resume Júlia Ramalho.



Museu de Olaria - Barcelos

 (foto de Lucília Ramos)

Centro de Documentação de Olaria - Interrupção da actividade
Informamos os nossos utilizadores que, em virtude das obras de remodelação e valorização do Museu de Olaria, o Centro de Documentação será encerrado de Agosto de 2009 a Fevereiro de 2010.
 
 

7 comentários:

Astrid Annabelle disse...

Bom dia Lucy!
Aceita um café com leite (de soja)?
Pois é, estou tomando meu café da manhã e lendo seu blog!
Tenho muito que lhe agradecer por me mostrar um Portugal fantástico....tudo o que sei da sua terra aprendi com você!
Na minha cozinha tenho um galinho, igual ao da última imagem, que recebi de presente da minha Mãe na volta de uma das muitas viagens que fez a Portugal.
A história humana e singela de Rosa Ramalho emociona...e da sua neta também por ter continuado a obra da avó!
Belos momentos que passei aqui.
A música me fez mergulhar de corpo e alma na freqüência portuguesa!
Parabéns...eu amo esse seu Portugal!
Beijo no coração.
Astrid Annabelle

Anónimo disse...

Lu, muito gosto eu de uma Rosa Ramalho!TANTO E TANTO!

Há anos vi uma reportagem com ela na Televisão, não sabia que tinha morrido já há tanto tempo.

Só aos 68 é que começou a criar a Arte que estava dentro dela. Pois é, nunca é tarde...ou é? :)
BEIJO +ABRAÇO
S

Eduardo Aleixo disse...

Sensibilizaram-me as palavras ternas de Júlia Ramalho sobre a avó. A avó que depois de criar sete filhos retoma o trabalho artístico aos 68 anos! Que lição de vida e de amor a uma missão! Morreu em 1977! Como o tempo passa! Gosto destas figuras do povo, humildes, mas tão grandiosas que levam os senhores da política e da arte a irem à sua terra render-lhe homenagem!.

Multiolhares disse...

Quando a arte vive nas pessoas, pode parar durante algum tempo mas logo que possa volta ás mãos de quem a ama, assim foi com essa senhora que retomou a sua arte passado tempo com muito amor, temos pessoas assim sem tanto prestigio mas com mãos lindas e até com pouca cultura, mas a arte não precisa de livros ela brota com a essência da pessoa
beijinhos

Agulheta disse...

Olá Lucy. Grande história sobre a mestra da olaria portuguesa,e sempre há quem lhe dê continuidade,pela mãos maravilhosas da neta,onde a ternura das palavras nos maravilha falando da avó.É nas almas simples e do povo,que nos devemos render a simplicidade das coisas,adorei.
Beijinho e boa semana Lisa

☼•Fabiano•☼ disse...

Que belo post falando sobre minha tia-avó Rosa Ramalho. Com efeito sua história é admirável assim como sua pessoa. Aprendi a nutrir por ela a mesma admiração que nutro pelo seu irmão (meu avô paterno Casimiro Barbosa Lopes) a quem infelizmente não conheci, mas que pelo que diz meu pai (e outras pessoas), era uma pessoa admirável e magnífica, tendo vindo de Portugal sem estudo, mas com uma inteligência prodigiosa e imensa vontade de trabalhar. Devemos tudo a ele.

Queria mesmo poder ver algo em vídeo sobre a Rosa, pois ela possuía uma semelhança física enorme com o meu avô, assim sendo, vê-la em movimento seria, de certo modo, como ver meu avô quando com vida.

Saudações desde o Brasil!

Fabiano disse...

Entrevista concedida por Rosa Ramalho:

http://www.youtube.com/watch?v=1UZ51856OuI