Fotografia do "Rio Cávado, no Gerês"

terça-feira, 3 de março de 2009

Por uma Educação Romântica... Rubem Alves


A maior acusação ao romantismo
não se fez ainda: é a de que ele
representa a verdade interior
da natureza humana.
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

(Pequenos excertos do livro: Por uma Educação Romântica)

O brinquedo e a arte são as únicas actividades permitidas no Paraíso.
O poeta, o artista, a criança: esses são os seres paradisíacos.
No Paraíso não existe trabalho. Existe apenas brinquedo e arte.

As crianças já nascem sabendo. Quando elas, através da educação, são transformadas em seres úteis, o Paraíso lhes é roubado: são obrigadas a esquecer do brinquedo e a viver no mundo do trabalho.

Recuperar a sapientia é lembrar-se da filosofia sem palavras que morava no corpo da criança.

Nietzsche escrevia a fim de preparar o caminho para a volta da criança. O seu homem-transbordante é uma criança. Num homem real ele dizia , se esconde uma criança… que deseja brincar… A maturidade de um homem é encontrar de novo a seriedade que se tinha quando criança, brincando. (Além do bem e do mal).




"Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas. Para as crianças eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e as papoulas vermelhas." (Nietzche)


Nos seis primeiros dias da Criação Deus criou a Feira das Utilidades. Usou o trabalho como actividade penúltima. No sábado, Deus criou a Feira das Fruições, o brinquedo, como actividade última. Quando a obra da criação terminou, o Deus trabalhador se transformou no Deus brincante, criança.
A ideia de separar as coisas em duas classes, as que podem ser usadas e as que devem ser fruidas, é de Santo Agostinho. Chamar cada uma dessas ordens de feira é ideia minha. Essa separação ajudou-me a pôr ordem nos meus objectos.

Na Feira das Utilidades se ensinam saberes. Saber é poder.
Na Feira das Fruições se educam os sabores. A educação dos sabores não tem por objectivo conhecer e dominar o mundo.

É isso que eu entendo por uma educação romântica: aquela que faz da Feira das Utilidades uma ferramenta da Feira da Fruição, que subordina

Os saberes aos sabores,
Os poderes aos prazeres e
Os adultos às crianças…

Por uma Educação Romântica – texto inédito de Rubem Alves
- Brevíssimos Exercícios de Imortalidade

6 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

A minha criança ficou deliciada com tantos sabores bons. Curioso: percebeu tudo, tinha o saber lá dentro quando saboreava o que Rubem Alves dizia. Se visses, amiga, como brinquei com o Einstein, tão sábio, com aquela sabedoria, que é a única, com o sabor da humildade! Por que será que os sábios são humildes? Que lindo texto! Tão útil! Obrigado. Vai reproduzindo mais textos desse autor que confesso desconheço. Mas a água do rio dele é a água que gosto de beber e é a minha água. A minha fonte. A fonte do meu regresso. Só esse Deus me interessa. Até o Zé do Telhado, analfabeto, percebe. E a Maria da Fonte também. Rimos os três como crianças. Os nossos risos são felizes. E eu bem precisava de sorir pelos motivos que tu sabes. Abraço e bem-hajas.
Eduardo

Eduardo Aleixo disse...

E...quem são os pimpolhos no meio das florinhas vermelhas?
Tudo bonito no teu bonito blogue.
Bj
EA

Lucy disse...

Eduardo,

Salvé poeta lisboeta! Tu lá vais garantindo o paraíso...

Pois se gostas de beber desta fonte do Rubem Alves eu vou matar-te a sede um pouco mais.
Podes saber mais deste pedagogo e poeta aqui:
http://www.releituras.com/rubemal
ves_bio.asp

Este menino que está no meio das papoilas é um sobrinho meu. Resolvi pô-lo a crescer no meio das papoilas para poder cantar: "uma criança crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer... Como ela somos livres, somos livres de crescer!"

Um beijo para ti, meu amigo.
Lucy

Dennys Reys disse...

Não é a toa que Jesus disse que entrará nos céus aquele que for como criança....

Espero sua visita também no meu outro blog: http://ointercessor.blogspot.com/

Abraços

Eduardo Aleixo disse...

Como ela, somos livres, somos livres, de crescer...

Uma gaivota voava, voava,
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Não me lembro, já.
Era o hino do PSD, quando eu militava no PS.

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Mas não me lembro.
Hoje só milito na liberdade, na beleza, no amor , e que mais?
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A veradde é que não me lembro da canção. Havias de gostar de ouvir. Como alenntejano que sou ...tenho boa voz. Acho que...acho, não, canto mesmo bem.
Mas ...a memória vai-me falhando.
Se não acrerditas no que digo, pergunta ao Zé do Telhado e à Maria da Fonte, que já me ouviram cantar.
E quanto à Maria da Fonte, embora tu não tenhas nada com isso, tenho mais estórias, lindas, abençoadas por Deus. em cima do telhado, debaixo das estrelas, ouvindo as águas das cataratas, e o som musical dos canaviais, que quem ouve estas coisas, e as sente e as saboreia, esquecer? Nunca mais!

Eduardo

Verdequetequerover-te disse...

Possa a Educação Romântica de Rubem Alves ser levada ao maior número possível de crianças, e de certeza a humanidade futura alcançará sua possibilidade máxima,que é viver em amor. Quando se vive o amor,perbe-se,desfruta-se o que se vê,cheira-se,saboreia-se,sente-se,aproveita-se o momento presente,como fazem lindamente as crianças e também os adultos que não as deixaram morrer dentro de si.

Agora,peço licença... vou continuar a apreciar o Portugal-Naturalmente Belo!

Bem-haja!